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A FORMA DA MEMÓRIA

Com família de origem grega e um olhar intimista, Patricia Anastassiadis é um dos principais nomes da arquitetura nacional. Mas não apenas o Brasil se encantou com suas propostas em que “a ousadia é emocionar”, uma vez que ampliou suas fronteiras para diversos países. Ao propor um diálogo entre as relações humanas e as formas arquitetônicas, ela e seu trabalho brilham. 

Patricia Anastassiadis afirma que não costuma se pautar por tendências, além de não lidar bem com a ideia do descarte. “Não acredito na ânsia de se consumir algo por uma vontade da moda. Crio peças e projetos que possam atravessar o tempo. Nem é uma busca pelo atemporal, mas pelo intemporal – me parece ser a palavra certa”. Isso não quer dizer que suas peças e projetos, após tantas pesquisas e um olhar de anos de experiência não se tornem tendências, o que ela considera uma consequência natural do seu trabalho. “Acontece mais por estarmos sintonizados com necessidades, comportamentos, com o ‘espírito do tempo’, digamos assim. Não vem de uma demanda de mercado”. 

Com tanto tempo de estrada, deve ser interessante olhar para trás e entender a evolução da arquitetura. O que continua igual? O que se transformou por completo? 

Eu diria que a maneira como nos relacionamos com os espaços, com os objetos e com o outro vêm mudando. O design e a arquitetura dialogam com esses comportamentos, com essas relações. De certa maneira, trabalhar com arquitetura é estar preparado para a mudança sempre.  

Você tem em seu portfólio projetos que incluem o Palácio Tangará e o resort Jumby Bay Island em Antígua. Considerando que os hotéis costumam ser um lugar de muitas línguas, culturas e comportamentos, como você imagina esses espaços?

O que define o meu trabalho é a maneira como estudo o local onde o projeto está inserido, a sua história, a sua cultura, a arquitetura vernacular… ou seja, todos os aspectos fundamentais para trazer a essência daquele lugar à tona. Eu costumo dizer que fazemos uma arqueologia do presente. É isso que vai proporcionar a melhor experiência para quem visitar – independentemente do local de origem desse hóspede ou visitante. Se eu pegar um projeto e transportá-lo para em qualquer outro lugar do mundo, não vai funcionar. É preciso uma identidade própria, uma narrativa única vinculada ao local onde eles estão. Nada é por acaso, nada é aleatório. Eu não adiciono uma obra de arte porque eu acho bonita, mas sim porque tem uma relação com a história que eu estou contando. Esse é o grande diálogo, na verdade. As pessoas sentem isso ao visitar esses espaços. 

A sua profissão exige ousadia. Como utilizá-la na medida correta?

Para mim, ousado é emocionar. É conseguir contar uma narrativa coerente esteticamente, que proporcione vivências únicas para quem frequenta aquele espaço.   

Diferentemente dos residenciais, os projetos corporativos ou de hospitalidade reúnem uma gama muito maior de decisores. Como é essa relação?

São projetos com grandes reuniões, longos processos. Mas eu me sinto muito à vontade nestas situações. Por muito tempo, eu preferi trabalhar com esses projetos de larga escala. Há alguns anos, venho retomando os projetos de casas e apartamentos e me encantando novamente por essas histórias, por esses clientes, por essas famílias.  

Como as suas inúmeras viagens ao redor do mundo influenciaram o seu estilo? 

Toda viagem mexe com os nossos afetos. E tudo aquilo que nos afeta, inevitavelmente, reflete na criação. Eu coleciono momentos, imagens, sons e aromas. Tudo é memória, e a memória é a matéria-prima do meu trabalho. Me inspiro em pedaços de tecidos, folhas, fotografias, objetos, exposições… Tudo isso serve como combustível para criar. 

Em que lugar no mundo a arquitetura mais surpreendeu você?

Há alguns anos, fui até Teshima, no Japão, para visitar o Museu de Arte da ilha. Foi uma experiência muito transformadora. É uma sensação única estar dentro daquela concha de concreto desenhada por Ryue Nishizawa. Parece que você está dentro de uma gota d’água. A luz e o vento criam uma atmosfera hipnotizante. Ao contemplar o céu, o silêncio torna-se absolutamente inspirador. Essa foi uma experiência que mudou minha percepção de espaço.

Considerando seus clientes internacionais, o que difere no operacional? Quais são as particularidades que acontecem nos outros países e não no Brasil?

Eu não diria que as coisas mudam de país para país, mas sim de projeto para projeto. Da mesma forma que cada projeto é único, cada cliente também é. Para trabalhar em tantas frentes e locais ao mesmo tempo, nós desenvolvemos muita flexibilidade. O custom-made vem dessa nossa capacidade de nos adaptarmos às diferentes situações e demandas.  

Para onde mais gosta de viajar a trabalho? E qual o seu destino predileto quando quer apenas passear? Onde se sente em casa?

Eu viajo muito, temos projetos em vários locais do mundo. Mas a minha família é de origem grega, então me sinto muito à vontade na Grécia. A ilha de Patmos é um dos meus lugares preferidos. Ela é conhecida por ser local de espiritualidade já que foi onde São João escreveu o Apocalipse. O que me marca ali é sua simplicidade e calmaria, bem diferente do clima badalado de Mykonos ou Santorini. É como se retornássemos à Grécia dos anos 70. É um local onde me sinto em casa.  

Qual país você ainda não conhece, mas já está nos seus planos?

Planejo visitar a Dinamarca, estive no país ainda menina e tenho o desejo de visitá-lo com um olhar adulto em uma nova imersão.

Para quais lugares “viajar sem sair de São Paulo”?  

Nos meus livros, sou uma pessoa muito tranquila neste ponto e sempre acabo optando por programações mais intimistas. 

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